Um jovem aproxima-se de Jesus. Boa aparência, educado, reverente e com as melhores internações. Ajoelha-se diante do Mestre e, com sinceridade e profunda devoção, pergunta: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” Pergunta solene, sem dúvida a mais importante de todas as perguntas, principalmente partindo de um jovem para quem a eternidade é ainda um tempo distante. Trata-se de um jovem rico, é assim que o relato bíblico o define. Não apenas rico, mas também íntegro e temente a Deus. Reconhece a bondade do Mestre, que responde dizendo que bom mesmo é Deus.
A conversa prossegue. Jesus pergunta-lhe se conhece os mandamentos e indaga por alguns como: “Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás a ninguém, honra a teu pai e tua mãe...” Ele ouve atentamente e responde que desde sua infância tem procurado observar todos eles. Era um bom moço que cuidava e respeitava seus pais, cuja fortuna não foi adquirida por meios ilegais ou fraudulentos, uma vez que nunca furtou ou cobiçou algo que não fosse seu; sempre tratou com dignidade os outros, não lhes faltando jamais com o respeito e honra devidos. O que é que lhe faltava? Ao ajoelhar-se diante do Mestre e chama-lo de “bom”, ele nos revela a reverência e temor para com Deus; ao afirmar que desde sua infância procurava observar os mandamentos, demonstra seu desejo de corresponder ao Deus da aliança sendo-lhe fiel e obediente aos mandamentos buscando não apenas responder a Deus, mas também aos homens e à família. Era, sem nenhuma dúvida, um moço íntegro.
Depois de responder a pergunta sobre o lugar dos mandamentos em sua vida, Jesus olha para ele com um olhar cheio de amor e ternura e conclui a conversa com uma proposta inesperada: “Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me.” Certamente o jovem não esperava por essa. Vender tudo, distribuir o produto entre os pobres, ficar sem nada; o que tem isso a ver com minha busca pela eternidade? Não seria suficiente temer a Deus, guardar seus mandamentos e viver de forma íntegra e irrepreensível diante dele e dos homens? Será que tudo isto não provocaria em Jesus um mínimo de satisfação. Uma vez que aquele jovem com certeza estava bem acima da média dos jovens do seu tempo?
Há duas pequenas expressões que podem nos ajudar a entender a proposta “absurda” de Jesus. A primeira vem do próprio jovem quando se aproxima de Jesus e o chama de “bom Mestre”. Será que ele de fato reconhece que Deus é absolutamente bom? A bondade de Deus, embora reconhecida por todos, nem sempre é experimentada como uma realidade existencial. A queda deformou nossa imagem de Deus e comprometeu nossa compreensão de sua bondade. Na criação, Deus nos é revelado como um bom Deus que cria um bom mundo e se alegra nele. No sétimo dia da criação, o Criador não cria nada, apenas nos convida para entrar no seu descanso e desfrutar a beleza da sua obra. Descanso sabático é reconhecer e aceitar a bondade de Deus. No entanto, a serpente nos convenceu de que Deus não é tão bom assim, ou, pelo menos, que está sempre escondendo alguma carta, que nunca põe o jogo totalmente na mesa, que gosta de brincar com nossa fragilidade e nos deixar na mão quando mais precisamos dele. Tenho a impressão que Jesus fizesse o mesmo comigo, me pedisse para vender tudo o que tenho e distribuir o dinheiro entre os pobres, possivelmente eu também não faria. Embora não sendo rico e não tendo muita coisa da qual me desfazer, reconheço que é difícil crer plenamente na bondade divina e me abandonar totalmente em suas mãos.
Aprendemos a confiar em nós mesmos e nos nossos recursos; temos medo do que Deus poderá fazer conosco se estivermos absolutamente entregues aos seus cuidados. Guardamos sempre uma reserva secreta para as eventuais falhas divinas.
A segunda expressão é também do jovem, que pergunta pelo caminho ou meio para herdar a vida eterna. Bem, que está de fato interessado na vida eterna não esta, por dedução, preocupado em acumular tesouros e bens aqui na terra. A proposta de Jesus procura desmascarar as contradições que sempre existem entre nossas convicções e anseios e a realidade que envolve nossas vidas e valores. Vender tudo o que tem e distribuir entre os pobres, para então ter um tesouro nos céus, é a atitude mais natural e comum de alguém que realmente está interessado na vida eterna. A proposta de Deus é coerente com a pergunta do jovem. Jesus não está aqui propondo o absurdo, nem jogando verde para tentar colher algo maduro mais adiante. Ele simplesmente responde com a mais absoluta coerência aquilo que para nós é apenas mais um jogo de interesses. Queremos o melhor da terra e do céu, e isto nem sempre é possível.
O encontro de Jesus com o jovem rico tira duas máscaras que normalmente usamos em nossa espiritualidade. A primeira é a de pensar que ser íntegro é suficiente. Nossa integridade moral não garante uma coerência espiritual. Coerência espiritual é nossa resposta sincera àquilo que de fato cremos. Noutras palavras, precisamos dar sentido à fé que afirmamos ter. São João Crisóstomo, um dos Pais da Igreja, em relação à mesma incoerência do jovem rico, afirmou: “É por isso que os gentios não acreditam no que dizemos. Eles querem que lhes demonstremos uma doutrina, não através de nossas palavras, mas de nossas obras. Mas quando nos vêem construir casas luxuosas, plantar jardins construir saunas e comprar terrenos, não podem convencer-se de que estamos preparando nossa viagem para outra cidade. Se fosse assim, argumentam eles, venderiam tudo o que possuem e o depositariam de antemão no lugar para onde vão.” Veja que Crisóstomo procura dar sentido ao que crê, fazer com que sua seja, não apenas relevante, mas também coerente, plena de significado.
A outra máscara que Jesus tira de nós é a da relação utilitária, na qual estamos viciados. Deus não é bom, é apenas útil. Se o jovem rico de fato cresse na bondade de Deus, reconheceria que a proposta de Jesus nasce e sustenta nessa bondade. Sem dificuldades, venderia tudo, distribuiria, entre os pobres e seguiria adiante com Jesus. Mas ele não creu na bondade do “bom Mestre”. Queremos o melhor de Deus, mas não nos abandonamos em suas mãos e aos seus cuidados; queremos a vida eterna, mas não pretendemos abrir mão dos nossos tesouros aqui, porque pode ser que ela demore a chegar ou, na pior das hipóteses, nem exista. Deus é bom simplesmente porque é No entanto, quando nos vemos diante de uma proposta como a que Jesus fez ao jovem rico duvidamos de sua bondade porque não reconhecemos em sua vontade algo que nos seja útil.
A vida em Cristo, se vivida na manifestação do seu reino, precisava destes dois elementos indispensáveis: uma fé coerente e um auto-abandono na bondade de Deus. O jardim na criação e o trabalho e descanso que desfrutamos nele refletem exatamente uma vida coerente com todas as convicções e o descanso da alma de quem reconhece que Deus é um bom Deus. Muitos cristãos ainda buscam, como o jovem rico, uma resposta que nos conduza à vida eterna. A eternidade é o abandono que hoje fazemos aceitar e descansar no amor e na bondade de Deus.