sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Eu acredito na rapaziada (Por Marcos Botelho)

“Eu acredito é na rapaziada que segue em frente e segura o rojão. Eu ponho fé é na fé da moçada que não foge da fera e enfrenta o leão. Eu vou à luta com essa juventude que não corre da raia a troco de nada. Eu vou no bloco dessa mocidade que não tá na saudade e constrói a manhã desejada...”
“Eu acredito na rapaziada” foi tirado de uma música do poeta Gonzaguinha. Mas, muito antes da poesia de Gonzaguinha o apostolo Paulo falou para os jovens que não deixem que os desprezem por serem jovens (1ª Tm 4.12) e o apostolo João completou dizendo “Jovens, eu lhes escrevi, porque vocês são fortes, e em vocês a Palavra de Deus permanece e vocês venceram o maligno.” (1 João 2:14b)
Nós da Missão Jovens da Verdade, MPC, SEPAL e outras inúmeras missões que trabalham com jovens, entendemos que Jesus foi o grande exemplo do líder que acreditou no jovem e o colocou como instrumento do seu Reino. Nos evangelhos vemos o Jesus adolescente que ensina os mestre no templo, o menino que entrega todo o seu lanche para Jesus fazer o milagre da multiplicação, o jovem Timóteo que bem novo assume uma igreja sozinho, ou as crianças que foram colocadas por Cristo como referencia do Reino de Deus.
Aos passos de Jesus prosseguimos em nossa missão de evangelizar, edificar e treinar a juventude para que se multiplique, engajada na tarefa de estender o Reino de Deus no Brasil e no mundo.
Ao longo dos anos percebemos que, quando se trata do ministério com jovens ou adolescentes, precisamos encorajar, investir e confiar. Isto tem sido um dos maiores desafios da liderança atual. Enfim, capacitar a juventude para que ela assuma as rédeas da Igreja do novo século será nossa difícil tarefa nos próximos anos.
Por isso, convidamos você, líder de jovens, para compartilhar suas experiências e louvando a Deus na sua obra e com aqueles que acreditam na rapaziada!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Fotos da Classe

Criação do MAURO, o mascote da Classe.































































sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Ser Comunitário

Esta foi uma das perguntas que me acompanharam durante muitos anos na minha insistente e teimosa permanência na igreja. Certamente para uma pessoa que, como eu, vive desde os primeiros dias de vida no seio de uma igreja, participando de sua rotina, construindo nela minhas amizades, envolvendo-me com seus problemas, ela acaba por tornar-se parte intrínseca do meu mundo pessoal, do lugar onde se deu a maioria dos acontecimentos que me formaram. De certa forma, acho que não saberia viver sem a igreja.

Mas, mesmo assim, a pergunta veio e exigia de mim uma resposta.
Para que preciso de uma igreja? Será que o que eu experimento nela, eu não conseguiria noutro lugar? Será que não me tornei um dependente eclesiástico, daqueles que, por não saberem conviver consigo mesmos, por terem medo da solidão, precisam da comunidade? Responder esta pergunta foi pra mim uma tarefa mais que teológica, era existencial. Sabia que de alguma forma minha identidade, meu sentido de ser, pertencia à igreja. Não era apenas uma relação de dependência psicológica ou química; sabia que, mesmo sem conseguir explicar a razão, eu precisava dela. Certamente não tinha nenhuma dúvida quanto à minha conversão, minha fé em Cristo Jesus, minha crença na Bíblia como Palavra de Deus. Mas, tudo isto ainda não explicava o porquê de precisar da igreja. Então parti para compreender um pouco mais este mistério.


De fato, a igreja é um grande mistério. O próprio apóstolo Paulo assim se referiu a ela quando, ao falar sobre o mistério da relação conjugal, o compara com o grande mistério que é também a relação de Cristo com sua igreja: “Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja”. O primeiro passo para compreender esta relação, como também para compreender o matrimônio, é saber aceitar o mistério, acolher aquilo que não conseguimos dominar ou decifrar completamente. Ainda assim, precisamos buscar compreender, a partir da revelação, o mistério da igreja.

A Igreja não é simplesmente uma instituição, um clube, um lugar que escolhemos e cujas regras determinamos. Ela é, antes de qualquer coisa, um lugar sagrado, que pertence a Deus e para o qual fomos chamados. Joseph Raztinger descreve assim a igreja: “Se eu me declaro por um partido, este se torna, por isso mesmo, o meu partido. Ora, a igreja de Jesus não é minha, mas sempre a Sua igreja. A essência da conversão consiste em que eu já não procure meu partido, com meus interesses e meus gostos, mas me entregue às mãos de Cristo e me torne Seu, me torne membro do Seu corpo, que é a igreja. O princípio do qual surge um clube é o próprio gosto, mas o princípio do qual se funda uma igreja é a obediência ao chamado do Senhor, como hoje lemos no evangelho: ‘Chamou-os e eles, deixando imediatamente o barco e o pai, seguiram Jesus’. (MT 4.21)”. Não somos nós que escolhemos a igreja, é Deus quem nos escolhe, chama, vocaciona e envia. No batismo renunciamos ao mundo e abraçamos a igreja e seu Senhor. A participação na igreja implica em deixar do lado de fora meus pensamentos e caminhos, para me converter e aceitar os caminhos e pensamentos de Cristo.

A partir deste conceito, reafirmamos que a igreja, de fato, não é uma instituição, muito embora também reconheçamos que ela precisa de uma para sua sobrevivência sociológica. Como disse Flannery O’Connor, “ao comprar o cachorro, adquirimos com ele as pulgas”. A burocracia eclesiástica é a pulga da igreja, mas este é outro assunto. A igreja, não sendo uma instituição ou clube, pode ser definida apenas como um jeito de ser, um modo de viver. Mas daí surge uma outra pergunta: que jeito de ser ou modo de viver é esse? É aqui que se encontra o mistério. O jeito de ser ou o modo de viver da igreja está profundamente vinculado ao ser de Deus que, por sua vez, afeta profundamente nosso ser e nossa relação com o mundo.

Para os Pais da Igreja, uma questão relevante que tomou muito tempo de reflexão nos primeiros séculos do cristianismo não era se Deus existe ou não; este assunto já estava resolvido. A questão fundamental para eles era: uma vez existindo, como é que ele existe? Uma vez que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, esta questão era, de fato, fundamental para compreender tanto a nós como a própria igreja.

Alguns pastores e teólogos como Inácio de Antioquia, Irineu e depois Atanásio procuraram se aproximar desta questão, não sob a influência gnóstica, que apresentavam um Deus distante e separado do mundo e dos homens, mas através da experiência comunitária. Essa experiência mostrou para eles que “o ser de Deus só pode ser conhecido através de relacionamentos pessoais e do amor pessoal. Ser significa vida e vida significa comunhão”. A Bíblia nos revela Deus como uma Trindade, três pessoas distintas, Pai, Filho e Espírito Santo. São distintos não apenas porque cada um é revelado dentro de um propósito definido no processo de salvação (Criador, Redentor e Santificador), mas porque em sua absoluta liberdade e pessoalidade, amam e se entregam na comunhão. O verdadeiro ser é uma pessoa livre, uma pessoa que livremente ama, que livremente afirma sua identidade numa comunhão com outra pessoa. Afirmamos que cremos num único Deus porque cremos numa comunhão tão perfeita de amor e entrega que não vemos três, mas um único e indivisível Deus onde a comunhão precede e determina o ser.

O conhecimento de Deus só é possível a partir da compreensão e aceitação dessa comunhão, pelo fato de ele mesmo não existir fora dela. Jesus afirmou: “Ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai; e também ninguém sabe quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Esta declaração demonstra o quanto o ser de Deus é intrinsecamente relacionado; o quanto o conhecimento depende da comunhão. Não há conhecimento possível do Filho sem a participação do Pai, e nem há possibilidade de conhecimento do Pai sem a revelação do Filho. Se não entendemos a comunhão no ser trinitário de Deus, não podemos conhecer a Deus. “Foi desta maneira que o mundo antigo ouviu pela primeira vez que é a comunhão que forma o ser, que nada existe sem ela, nem mesmo Deus” (John Zizioulas).

A partir do momento em que somos recebidos na igreja, que nos tornamos membros dela, como disse Ratzinger, passamos a pertencer a algo que é maior do que nós, algo que pertence a Cristo, ao propósito divino para a humanidade. A igreja, neste sentido, por existir da forma como Deus mesmo existe, torna-se fundamental na restauração de nossa imagem à de Deus. John Zizioulas, teólogo ortodoxo, afirma que: “Este modo de ser não é uma conquista moral, algo que o homem alcança por si. É um modo de relacionamento com o mundo, com outras pessoas e com Deus, um evento de comunhão, e por isto não pode ser alcançado como uma conquista de um indivíduo, mas somente como um fato eclesial”. Sendo Deus uma comunidade de pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo), a igreja só pode existir como uma realidade comunitária.

A partir desta breve incursão no significado da doutrina d Trindade, podemos voltar a nossa pergunta original: “Por que precisamos da igreja?”. Bem, se reconhecemos que não existe nenhum ser verdadeiro fora da comunhão e nenhuma comunhão verdadeira que negue a pessoa, somos levados a reconhecer que a igreja ocupa um papel central na compreensão da identidade humana como pessoa e, sobretudo, no conhecimento de Deus. Noutras palavras, podemos dizer que “essa teologia da pessoa, que surge pela primeira vez na história através da visão patrística do ser de Deus, jamais se tornaria uma experiência viva para o homem sem o mistério da igreja” (John Zizioulas}.

Deixe-me tornar isto mais claro com duas razões pelas quais reconheço a necessidade imperativa que temos da comunhão do corpo de Cristo. Primeiro, precisamos da igreja porque a partir da doutrina da Trindade e do mistério da comunhão é que vemos que a vida cristã é basicamente relacional, é a conversão do indivíduo em pessoa diante de Deus. O indivíduo é o ser encapsulado em si mesmo, que se realiza a partir de suas próprias conquistas, que interpreta a liberdade como autonomia e que rejeita tudo que vem de fora como sendo menos real e verdadeiro. Já a pessoa é o ser liberto de si mesmo para uma vida de entrega e auto-abandono, que se realiza na comunhão e na experiência de amor com Deus e o próximo, que se alegra com a co-dependência, aprende a confiar, aceita a paternidade de Deus e, alegremente, submete-se a ela, provando o cuidado amoroso do pai e a comunhão como Filho. A conversão cristã não é apenas uma conversão de convicções e comportamentos, mas uma conversão do ser, é a transformação do egoísmo na generosidade, da mágoa no perdão, da alienação na comunhão. As virtudes cristãs nunca são experimentadas solitariamente, só podem ser provadas em comunhão, na relação com um outro. Humildade, mansidão perdão, generosidade, justiça, gratidão, alegria, domínio próprio, jamais serão experimentados pelo indivíduo, mas pela pessoa em comunhão. No ser de Deus não há nada que seja experimentado ou realizado individualmente, solitariamente; tudo é experimentado e realizado em comunhão, na participação de um no outro e com o outro. Também nós somos chamado à comunhão com Deus por meio do seu Filho, e esta comunhão se horizontaliza na mesa da eucaristia, onde juntos comemos do pão e bebemos do cálice, participando da vida e morte do Senhor e anunciado-a na comunhão da igreja até que Ele venha.

Segundo, precisamos da igreja porque é a comunhão que nos permite ter um conhecimento mais real e objetivo sobre nós mesmos. Não há conhecimento verdadeiro fora dos relacionamentos. Penso que a dificuldade que muitos encontram para viver em comunhão é porque ela revela nossas feridas, medos, pecados, ansiedades e toda sorte de ambigüidades. É na comunhão com Deus, família e igreja que entro em contato com a realidade de quem sou. Como pastor, ouço muitos criticarem a igreja, declararem sua rejeição pelos que consideram chatos e inoportunos, sua intolerância aos rituais monótonos e repetitivos, sua impaciência para com as mudanças, sua intolerância para com os diferentes, etc. As críticas, na maioria das vezes, procedem, têm argumentos lógicos e pertinentes. Talvez, para muitos, seria mais fácil e simples viver as ilusões do mundo impessoal. Quando viajo e participo de congressos onde sou convidado para falar, normalmente as pessoas, por gentileza ou sinceridade, me elogiam, me tratam com respeito e admiração, alguns chegam até a se emocionar. No entanto, quando volto para casa, minha esposa e filhos não se impressionam facilmente com o que faço, não me enchem de elogios todos os dias. Apenas me amam como sou. O mesmo acontece em minha igreja. Nestes lugares minhas relações são mais pessoais porque minhas fraquezas são expostas, minha humanidade caída e reconciliada pelo poder de Cristo é conhecida. É neste mundo de relacionamentos pessoais que sou sempre lembrado a olhar para mim mesmo, a tocar na minha realidade. Se vivesse sempre viajando, falando, recebendo elogios, sendo tratado com deferência, cedo ou tarde perderia o senso de realidade porque perdi a vida de comunhão. Preciso da família e da igreja, preciso da comunhão pessoal para preservar-me cristão e humano. Se as pessoas rejeitam a comunhão por achá-la chata, enfadonha, complicada, é porque ainda resistem ao amor, à entrega e ao encontro real consigo mesmas. É somente na comunhão, na superação do egoísmo, na aceitação do outro, que eu me encontro comigo na presença de Deus. Fora de um relacionamento pessoal não há conhecimento objetivo de nós mesmos. Mas a relação entre a pessoa e a igreja é determinada pelo relacionamento entre a pessoa e Cristo. O ser nova criatura em Cristo é provar o poder de uma nova humanidade que se realiza na experiência da comunhão.

A comunhão através das relações pessoais é o coração da realidade. O Deus Triúno da graça nos liberta do individualismo autônomo e refaz em nós, pelo poder do seu Espírito, na mediação de Cristo, um novo homem à imagem de Deus. O encontro como Deus Triúno é a conversão radical dos nossos relacionamentos, transformando a natureza corrompida das nossas famílias e igrejas em verdadeiras comunidades onde cada pessoa é nutrida e amada com respeito, valor e identidade próprios de cada um.

Cada vez que nos assentamos ao redor da mesa da eucaristia e recebemos a dádiva da vida de nosso Senhor através da comunhão do pão e do vinho, estamos reafirmando nossa vocação comunitária. O “eu” se transforma num glorioso “nós”. Ao redor da mesa a igreja encontra sempre sua plenitude e significado. Estas são algumas razões pelas quais eu preciso da igreja.


Texto Extraído do livro: “Janelas para a Vida – Espiritualidade do Cotidiano ”, do Pr. Ricardo Barbosa de Sousa.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

TAREFA DA SEMANA - Quando ser íntegro não basta - Rev Ricardo Barbosa

Um jovem aproxima-se de Jesus. Boa aparência, educado, reverente e com as melhores internações. Ajoelha-se diante do Mestre e, com sinceridade e profunda devoção, pergunta: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” Pergunta solene, sem dúvida a mais importante de todas as perguntas, principalmente partindo de um jovem para quem a eternidade é ainda um tempo distante. Trata-se de um jovem rico, é assim que o relato bíblico o define. Não apenas rico, mas também íntegro e temente a Deus. Reconhece a bondade do Mestre, que responde dizendo que bom mesmo é Deus.
A conversa prossegue. Jesus pergunta-lhe se conhece os mandamentos e indaga por alguns como: “Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás a ninguém, honra a teu pai e tua mãe...” Ele ouve atentamente e responde que desde sua infância tem procurado observar todos eles. Era um bom moço que cuidava e respeitava seus pais, cuja fortuna não foi adquirida por meios ilegais ou fraudulentos, uma vez que nunca furtou ou cobiçou algo que não fosse seu; sempre tratou com dignidade os outros, não lhes faltando jamais com o respeito e honra devidos. O que é que lhe faltava? Ao ajoelhar-se diante do Mestre e chama-lo de “bom”, ele nos revela a reverência e temor para com Deus; ao afirmar que desde sua infância procurava observar os mandamentos, demonstra seu desejo de corresponder ao Deus da aliança sendo-lhe fiel e obediente aos mandamentos buscando não apenas responder a Deus, mas também aos homens e à família. Era, sem nenhuma dúvida, um moço íntegro.
Depois de responder a pergunta sobre o lugar dos mandamentos em sua vida, Jesus olha para ele com um olhar cheio de amor e ternura e conclui a conversa com uma proposta inesperada: “Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me.” Certamente o jovem não esperava por essa. Vender tudo, distribuir o produto entre os pobres, ficar sem nada; o que tem isso a ver com minha busca pela eternidade? Não seria suficiente temer a Deus, guardar seus mandamentos e viver de forma íntegra e irrepreensível diante dele e dos homens? Será que tudo isto não provocaria em Jesus um mínimo de satisfação. Uma vez que aquele jovem com certeza estava bem acima da média dos jovens do seu tempo?
Há duas pequenas expressões que podem nos ajudar a entender a proposta “absurda” de Jesus. A primeira vem do próprio jovem quando se aproxima de Jesus e o chama de “bom Mestre”. Será que ele de fato reconhece que Deus é absolutamente bom? A bondade de Deus, embora reconhecida por todos, nem sempre é experimentada como uma realidade existencial. A queda deformou nossa imagem de Deus e comprometeu nossa compreensão de sua bondade. Na criação, Deus nos é revelado como um bom Deus que cria um bom mundo e se alegra nele. No sétimo dia da criação, o Criador não cria nada, apenas nos convida para entrar no seu descanso e desfrutar a beleza da sua obra. Descanso sabático é reconhecer e aceitar a bondade de Deus. No entanto, a serpente nos convenceu de que Deus não é tão bom assim, ou, pelo menos, que está sempre escondendo alguma carta, que nunca põe o jogo totalmente na mesa, que gosta de brincar com nossa fragilidade e nos deixar na mão quando mais precisamos dele. Tenho a impressão que Jesus fizesse o mesmo comigo, me pedisse para vender tudo o que tenho e distribuir o dinheiro entre os pobres, possivelmente eu também não faria. Embora não sendo rico e não tendo muita coisa da qual me desfazer, reconheço que é difícil crer plenamente na bondade divina e me abandonar totalmente em suas mãos.
Aprendemos a confiar em nós mesmos e nos nossos recursos; temos medo do que Deus poderá fazer conosco se estivermos absolutamente entregues aos seus cuidados. Guardamos sempre uma reserva secreta para as eventuais falhas divinas.
A segunda expressão é também do jovem, que pergunta pelo caminho ou meio para herdar a vida eterna. Bem, que está de fato interessado na vida eterna não esta, por dedução, preocupado em acumular tesouros e bens aqui na terra. A proposta de Jesus procura desmascarar as contradições que sempre existem entre nossas convicções e anseios e a realidade que envolve nossas vidas e valores. Vender tudo o que tem e distribuir entre os pobres, para então ter um tesouro nos céus, é a atitude mais natural e comum de alguém que realmente está interessado na vida eterna. A proposta de Deus é coerente com a pergunta do jovem. Jesus não está aqui propondo o absurdo, nem jogando verde para tentar colher algo maduro mais adiante. Ele simplesmente responde com a mais absoluta coerência aquilo que para nós é apenas mais um jogo de interesses. Queremos o melhor da terra e do céu, e isto nem sempre é possível.
O encontro de Jesus com o jovem rico tira duas máscaras que normalmente usamos em nossa espiritualidade. A primeira é a de pensar que ser íntegro é suficiente. Nossa integridade moral não garante uma coerência espiritual. Coerência espiritual é nossa resposta sincera àquilo que de fato cremos. Noutras palavras, precisamos dar sentido à fé que afirmamos ter. São João Crisóstomo, um dos Pais da Igreja, em relação à mesma incoerência do jovem rico, afirmou: “É por isso que os gentios não acreditam no que dizemos. Eles querem que lhes demonstremos uma doutrina, não através de nossas palavras, mas de nossas obras. Mas quando nos vêem construir casas luxuosas, plantar jardins construir saunas e comprar terrenos, não podem convencer-se de que estamos preparando nossa viagem para outra cidade. Se fosse assim, argumentam eles, venderiam tudo o que possuem e o depositariam de antemão no lugar para onde vão.” Veja que Crisóstomo procura dar sentido ao que crê, fazer com que sua seja, não apenas relevante, mas também coerente, plena de significado.
A outra máscara que Jesus tira de nós é a da relação utilitária, na qual estamos viciados. Deus não é bom, é apenas útil. Se o jovem rico de fato cresse na bondade de Deus, reconheceria que a proposta de Jesus nasce e sustenta nessa bondade. Sem dificuldades, venderia tudo, distribuiria, entre os pobres e seguiria adiante com Jesus. Mas ele não creu na bondade do “bom Mestre”. Queremos o melhor de Deus, mas não nos abandonamos em suas mãos e aos seus cuidados; queremos a vida eterna, mas não pretendemos abrir mão dos nossos tesouros aqui, porque pode ser que ela demore a chegar ou, na pior das hipóteses, nem exista. Deus é bom simplesmente porque é No entanto, quando nos vemos diante de uma proposta como a que Jesus fez ao jovem rico duvidamos de sua bondade porque não reconhecemos em sua vontade algo que nos seja útil.
A vida em Cristo, se vivida na manifestação do seu reino, precisava destes dois elementos indispensáveis: uma fé coerente e um auto-abandono na bondade de Deus. O jardim na criação e o trabalho e descanso que desfrutamos nele refletem exatamente uma vida coerente com todas as convicções e o descanso da alma de quem reconhece que Deus é um bom Deus. Muitos cristãos ainda buscam, como o jovem rico, uma resposta que nos conduza à vida eterna. A eternidade é o abandono que hoje fazemos aceitar e descansar no amor e na bondade de Deus.